Programa Carnívoros do Rio: monitoramento, tecnologia e ações integradas na Mata Atlântica

Programa Carnívoros do Rio: monitoramento, tecnologia e ações integradas na Mata Atlântica

A Mata Atlântica do estado do Rio de Janeiro abriga uma riqueza impressionante de carnívoros silvestres. Espécies emblemáticas como a onça-parda (Puma concolor), a jaguatirica (Leopardus pardalis), o gato-do-mato-pequeno (Leopardus guttulus), o gato-maracajá (Leopardus wiedii), a irara (Eira barbara), o mão-pelada (Procyon cancrivorus), o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) e o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) compartilham uma paisagem cada vez mais fragmentada.

A expansão das atividades humanas sobre os ambientes naturais, associada à perda e fragmentação de habitats, aos atropelamentos, à transmissão de doenças por animais domésticos e aos conflitos com criações, impõe desafios cada vez maiores à conservação dos carnívoros silvestres. Diante desse cenário, compreender como essas espécies utilizam o território e respondem às diferentes pressões antrópicas é fundamental para orientar estratégias de conservação mais eficazes. É nesse contexto que se insere o Programa Carnívoros do Rio, iniciativa dedicada à conservação dos carnívoros nativos por meio do monitoramento de populações em propriedades privadas, da pesquisa científica, de ações de manejo e reabilitação e da mediação de conflitos entre a fauna silvestre e as atividades humanas.

Uma das principais frentes do programa é o monitoramento de fauna em áreas privadas parceiras. Para mapear a presença e a dinâmica dos carnívoros, as câmeras trap surgem como aliadas indispensáveis. O Programa Carnívoros do Rio é um dos projetos contemplados pelo apoio a projetos de conservação da Log Nature, que realizou a doação de armadilhas fotográficas como as câmeras Browning Dark Ops FHDR40 e Bushnell DS-4K No Glow, permitindo a expansão desse trabalho em campo.

Registro: Programa Carnívoros do Rio

Um exemplo prático do projeto ocorre na Pousada Alto da Coruja, em Resende (RJ), localizada entre 950 e 1.200 metros de altitude, no entorno do Parque Nacional do Itatiaia. Em um ano, uma grade de oito câmeras trap acumulou 1.460 armadilhas-dia e 554 registros, dos quais 275 foram de mamíferos, 273 de aves, cinco de répteis e um não identificado.

Entre as espécies registradas destacam-se a onça-parda, o gato-do-mato-pequeno, o veado-catingueiro, a jaguatirica, a paca e a juruva-verde. O levantamento também detectou a presença do javali (Sus scrofa), espécie exótica invasora que exige atenção pelo impacto sobre a fauna nativa.

O monitoramento contínuo de longo prazo também revela particularidades comportamentais e individuais, como o registro de uma irara (Eira barbara) leucística capturada em dois pontos diferentes da grade em meses distintos. Isso demonstra o uso recorrente da área como refúgio e corredor ecológico entre fragmentos e Unidades de Conservação.

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Irara Leucística (Eira barbara) - Registro: Programa Carnívoros do Rio

Configuração e Instalação de Câmeras no Programa Carnívoros do Rio

Para garantir dados de alta qualidade, a equipe do Programa Carnívoros do Rio adota um protocolo importante na instalação e configuração das câmeras trap:

1. Escolha de Pontos e Organização

●     Triagem de vestígios: A escolha do local baseia-se na busca prévia de indícios (pegadas, fezes, odores, marcações e trilhas).

●     Grid e Nomenclatura: Mantém-se um espaçamento padronizado entre 500 m e 1 km entre os pontos, identificados sequencialmente (P01, P02, P03...) para manter a organização em planilhas e cartões de memória.

2. Configurações do Equipamento

●     Modo de Registro: Na Mata Atlântica, recomenda-se optar exclusivamente por fotos ou exclusivamente por vídeos, evitando o modo híbrido. O modo híbrido pode introduzir um tempo de espera automático entre o disparo da foto e o início do vídeo, levando à perda de registros rápidos em vegetação densa.

●     Resolução e Áudio: Utiliza-se a maior resolução disponível para facilitar a identificação individual por meio de marcas corporais, cicatrizes e padrões de pelagem. A gravação de áudio deve ser mantida ativa para registrar vocalizações.

●     Sensibilidade e Intervalo: Para vídeos, recomenda-se duração de 10 a 15 segundos. Em locais onde o animal tende a permanecer, o intervalo entre disparos é ajustado para 0,5 a 1 segundo.

●     Posicionamento: As câmeras são instaladas entre 20 e 30 cm do solo (ajustadas conforme a espécie-alvo e o relevo), posicionadas perpendicularmente à trilha para capturar flanco, rosto e cauda. Galhos e folhas imediatamente à frente são limpos para evitar disparos em falso.

Tecnologias Complementares: Da Reabilitação à Telemetria

Além das armadilhas fotográficas, o programa atua em parceria com o CETAS IBAMA/RJ na reabilitação, soltura e acompanhamento pós-soltura de carnívoros.

Para espécies de hábitos amplos ou animais reintegrados, o programa utiliza tecnologias de rádio-telemetria. Um marco dessa atuação foi a reabilitação de um gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi), o primeiro felino monitorado com colar de rastreamento no estado do Rio de Janeiro. Enquanto o sistema VHF exige busca ativa em campo no período pós-soltura, os colares satelitais enviam localizações periódicas programadas, permitindo mapear a área de vida e identificar potenciais zonas de risco sem interferir no comportamento natural do animal.

Yan Rodrigues - Programa Carnívoros do Rio

Mediação de Conflitos e Envolvimento Comunitário

A conservação dos carnívoros em paisagens fragmentadas depende diretamente da convivência harmônica com as populações locais. O Programa Carnívoros do Rio atua na mediação de conflitos humano-fauna, identificando fatores de risco e implementando medidas preventivas para conter retaliações a predadores.

Quando há necessidade de manejo ou captura de segurança, o Programa presta suporte técnico às prefeituras parceiras utilizando equipamentos especializados fornecidos pela Log Nature, como cambões, redes de captura e puçás de rede, garantindo o bem-estar do animal e a segurança das equipes.

Ao integrar monitoramento científico, tecnologia de ponta, engajamento comunitário e ações de ciência cidadã, o Programa Carnívoros do Rio transforma moradores e proprietários em parceiros ativos da conservação, garantindo que a fauna silvestre continue a desempenhar seu papel ecológico na Mata Atlântica.

Colaboração especial

Este texto foi elaborado em parceria com o Programa Carnívoros do Rio, apoiado pelo edital de incentivo a projetos de conservação da Log Nature em 2026. Agradecemos ao biólogo Yan Rodrigues, pesquisador do projeto, por compartilhar seus conhecimentos e pelas ações de conservação desenvolvidas na Mata Atlântica.