Monitoramento acústico e pesquisas no MONA Cagarras ampliam o conhecimento sobre a espécie Tonatia bidens.
Localizado a cerca de 5 km das praias de Ipanema e Copacabana, no Rio de Janeiro, o Monumento Natural do Arquipélago das Ilhas Cagarras (MONA Cagarras) é uma unidade de conservação federal composta por seis ilhas. Apesar da proximidade com a zona urbana da capital fluminense, o arquipélago abriga uma rica biodiversidade.
Estudos recentes desenvolvidos no MONA Cagarras pela empresa Piper 3D – Pesquisa, Educação e Consultoria Ambiental, em parceria com o Projeto Ilhas do Rio (Instituto Mar Adentro), o ICMBio e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ/LEMA), revelaram uma dominância impressionante de uma espécie de morcego pouco conhecida: a Tonatia bidens.
Classificada como "Deficiente de Dados" (DD) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a Tonatia bidens é considerada uma espécie rara no Brasil, com poucas informações consolidadas na literatura científica.
Historicamente associados a florestas bem preservadas, os indivíduos dessa espécie são frequentemente utilizados como indicadores de integridade ambiental e qualidade do habitat. No entanto, a escassez de dados científicos sobre a T. bidens resulta em uma compreensão biológica ainda fragmentada, pautada primariamente por capturas ocasionais e espécimes mantidos em coleções científicas.
Predominantemente insetívora, a Tonatia bidens também pode se alimentar de pequenos vertebrados, como pererecas e pequenas aves. Seus abrigos conhecidos incluem grutas e ocos de árvores, formações amplamente disponíveis no ecossistema do MONA Cagarras.

A relevância populacional no MONA Cagarras e o monitoramento bioacústico
A dimensão e a relevância da população de T. bidens no arquipélago destacam-se quando confrontadas com levantamentos históricos na região. Em um amplo estudo conduzido por Esbérard e Bergallo (2004) no estado do Rio de Janeiro, que consolidou dados de aproximadamente 700 noites de amostragem em 57 localidades e contabilizou mais de 18 mil capturas de morcegos, registraram-se apenas 76 indivíduos da espécie.
Em contraste, pesquisas no MONA Cagarras registraram 154 indivíduos capturados em apenas 20 noites, representando cerca de 92% de todas as capturas de morcegos no local. Esse dado confirma a expressiva dominância da espécie no ambiente.
Além disso, durante os estudos na Ilha Redonda, os pesquisadores registraram pela primeira vez o consumo de musgo por T. bidens. Essa observação inédita evidenciou a flexibilidade ecológica da espécie em ambientes de ilha e reforçou a necessidade de investigações aprofundadas sobre o seu nicho ecológico. O achado foi publicado em artigo na revista Biodiversidade Brasileira.
A expressiva população de T. bidens encontrada no arquipélago transforma o MONA Cagarras em uma área estratégica para investigar a ecologia, os padrões reprodutivos e o comportamento do grupo. A pesquisa realizada pelo projeto combina amostragens diretas (captura, identificação de sexo e condição reprodutiva, biometria e marcação) com o monitoramento acústico ativo e passivo.
Orientando-se no escuro por ecolocalização, os morcegos têm no monitoramento bioacústico uma ferramenta importante de estudo. No entanto, a bioacústica de quirópteros na região Neotropical ainda enfrenta gargalos, como a ausência de bancos de dados sonoros padronizados.
O desafio é ainda maior com a família Phyllostomidae, à qual pertence o gênero Tonatia. Conhecidos na literatura como "morcegos sussurradores" (whispering bats), esses animais emitem chamados de ecolocalização com baixíssima amplitude (volume baixo) e alta variação de frequência, exigindo metodologias altamente refinadas.
O manejo no arquipélago
O repertório sonoro da T. bidens é registrada com abordagens complementares na pesquisa:
- Gravações Ativas: Na Ilha de Palmas, gravações dos chamados de estresse e vocalizações sociais são realizadas no momento do manejo. Na soltura, um gravador ativo acompanha o voo de orientação do indivíduo.
- Gravações Passivas: Estações fixas de monitoramento acústico operam tanto próximo às redes em noites de amostragem quanto em noites sem presença de pesquisadores.
Essas estações fixas foram instaladas na Ilha de Palmas (local de maior captura da espécie) e na Ilha Comprida, a única ilha do arquipélago onde T. bidens nunca foi registrada.
A ausência da espécie na Ilha Comprida dialoga diretamente com outro projeto da equipe: o manejo da ratazana (Rattus norvegicus). Trata-se de uma espécie exótica invasora cuja presença no arquipélago foi detectada apenas na Ilha Comprida. A hipótese trabalhada é que a ausência do morcego nessa ilha decorre da pressão de predação e perturbação exercida pelo roedor invasor.
Com os avanços no controle e erradicação de R. norvegicus, os gravadores acústicos passivos atuam como bioindicadores da recuperação do ecossistema, permitindo acompanhar uma possível recolonização da Ilha Comprida pela T. bidens.
A execução de um protocolo bioacústico exige equipamentos de elevada robustez técnica. O projeto conta com a parceria da Log Nature, que fornece tecnologias especializadas para o desenvolvimento das amostragens e gravações no campo, como o gravador Echo Meter Touch 2 e o Song Meter Mini Bat 2.
A iniciativa permitirá extrair parâmetros sonoros refinados (como frequências mínimas e máximas, frequência de máxima energia, duração e intervalo de pulsos e presença de harmônicas), construindo o primeiro banco de dados acústico padronizado para a espécie.
A médio prazo, os dados permitirão estimar o tamanho da população na Ilha de Palmas, compreendendo suas flutuações e ciclos reprodutivos. A longo prazo, a pesquisa consolidará uma base científica sólida para subsidiar ações de gestão do ICMBio, apoiar a formação de novos pesquisadores e fortalecer a conservação da biodiversidade no MONA Cagarras.

Colaboração especial
Este texto foi elaborado em parceria com a Piper 3D – Pesquisa, Educação e Consultoria Ambiental e a Ilhas do Rio (Instituto Mar Adentro), apoiado pelo programa de incentivo a projetos de conservação da Log Nature em 2026. Agradecemos às biólogas Júlia Lins Luz (pesquisadora e coordenadora do projeto), Elizabete Captivo Lourenço e Luciana de Moraes Costa (pesquisadoras e integrantes do projeto) por compartilharem seus conhecimentos.