Desvendando a fenologia das aves com redes de neblina, anilhas e gravadores acústicos
As aves realizam diversas atividades essenciais para sua sobrevivência e reprodução, incluindo a busca por alimento, os deslocamentos, a ocupação e defesa de territórios, a reprodução, o cuidado parental, a muda de penas e, em muitas espécies, os movimentos migratórios. Esses processos demandam energia e são influenciados por fatores ambientais, como a disponibilidade de recursos e as condições climáticas. A ocorrência dessas atividades em condições favoráveis é fundamental para a sobrevivência dos indivíduos e para o sucesso reprodutivo das populações.
Para as espécies migratórias, esse desafio é ainda maior. Todos os anos, elas realizam longas jornadas de ida e volta entre áreas de reprodução e descanso, sincronizando cada etapa do ciclo de vida com as condições mais favoráveis do ambiente. Afinal, não basta apenas reproduzir-se: é necessário que haja alimento suficiente para os filhotes quando nascerem, que as condições climáticas sejam adequadas e que a ave tenha energia para enfrentar processos fisiológicos exigentes, como a muda de penas.
A ocorrência de eventos biológicos como reprodução, migração e muda de penas segue padrões temporais influenciados pelas condições ambientais. O estudo desses padrões e de sua relação com fatores como clima e disponibilidade de recursos é denominado fenologia.
Nas plantas, a fenologia acompanha eventos como brotação, floração, frutificação e queda das folhas. Nos animais, diferentes grupos apresentam seus próprios ciclos fenológicos. Nas aves, destacam-se principalmente os períodos de reprodução, migração e muda.
Embora amplamente aplicada à botânica, a fenologia animal ainda é menos estudada. Entretanto, compreender a dinâmica temporal desses eventos é fundamental para avaliar como as espécies respondem às variações ambientais e às mudanças climáticas.
Os padrões fenológicos podem variar entre populações de uma mesma espécie, uma vez que os estímulos que desencadeiam eventos biológicos dependem das condições locais. Por isso, estudos realizados em diferentes regiões são essenciais para compreender a diversidade de respostas apresentadas pelas espécies.

O desafio de estudar o calendário das aves
Investigar a fenologia de plantas costuma ser relativamente simples, já que os indivíduos permanecem fixos no ambiente e podem ser acompanhados periodicamente. Com as aves, o cenário é diferente.
Por serem altamente móveis, obter informações precisas sobre o início e a duração de cada fase do ciclo anual exige um esforço contínuo de monitoramento. Para identificar, por exemplo, quando uma espécie inicia seu período reprodutivo em determinada região, é necessário acompanhar indivíduos ao longo de todo o ano, observando características físicas associadas à reprodução e registrando mudanças comportamentais.
Nesse contexto, técnicas como a captura com redes de neblina e o anilhamento tornam-se ferramentas fundamentais. O anilhamento consiste na marcação individual das aves por meio de pequenas anilhas metálicas colocadas nos tarsos. Essa técnica permite o acompanhamento de indivíduos ao longo do tempo e gera informações valiosas sobre sobrevivência, reprodução e sazonalidade.
Esses métodos demandam equipes treinadas e um esforço de campo considerável, mas fornecem dados indispensáveis para a compreensão da dinâmica das populações de aves.

Monitoramento de longo prazo: uma ferramenta para a conservação
Quando realizados de forma contínua ao longo dos anos, os estudos fenológicos permitem identificar padrões e alterações que podem refletir mudanças ambientais importantes.
Eventos extremos, como secas prolongadas, incêndios ou enchentes, podem modificar significativamente os ciclos biológicos das espécies. No Rio Grande do Sul, por exemplo, surge uma questão importante: quais foram os impactos das enchentes históricas de maio de 2024 sobre os ciclos anuais das aves e sua sobrevivência?
Responder perguntas como essa só é possível por meio de monitoramentos padronizados e de longo prazo. Em diversos países da Europa e da América do Norte, redes de monitoramento conhecidas como observatórios já acumulam décadas de dados, permitindo detectar alterações nos períodos migratórios, nos picos reprodutivos, nos ciclos de muda de penas e até na ocorrência de doenças emergentes.
No Brasil, iniciativas desse tipo ainda são relativamente raras, o que torna projetos de monitoramento contínuo especialmente importantes para a geração de conhecimento e para o planejamento de ações de conservação.

Gravadores acústicos ampliam a precisão dos estudos
Apesar da importância das capturas e do anilhamento, acompanhar diariamente as populações é um grande desafio logístico. Por isso, novas tecnologias vêm ampliando a capacidade dos pesquisadores de registrar eventos biológicos com maior precisão. Entre essas ferramentas estão os gravadores acústicos autônomos.
No caso das aves, o monitoramento acústico passivo pode revelar com grande precisão quando uma espécie migratória chega a determinada área, uma vez que muitas delas vocalizam intensamente ao ocupar novos ambientes. A análise das gravações permite identificar não apenas o período, mas, em alguns casos, até mesmo o dia em que determinado evento ocorreu.
Dessa forma, a combinação entre métodos tradicionais, como redes de neblina e anilhamento, e tecnologias de monitoramento acústico representa uma poderosa estratégia para aprofundar o conhecimento sobre o ciclo anual das aves.

O Observatório do Banhado
Desde outubro de 2021, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) realizam um monitoramento mensal no Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos, unidade de conservação estadual localizada na região metropolitana de Porto Alegre.
O projeto, denominado Observatório do Banhado, iniciou suas atividades utilizando redes de neblina e anilhamento e, mais recentemente, incorporou gravadores acústicos autônomos para complementar a coleta de dados.
Ao longo desse período, já foram registradas aproximadamente 2.500 capturas de 90 espécies de aves, além de milhares de horas de gravações acústicas que seguem em análise.
Os dados obtidos permitem compreender a fenologia de espécies migratórias, como o enferrujado e o guaracavuçu, além de aves residentes comuns na região, incluindo diferentes espécies de pula-pulas, trepadores e sabiás. As informações coletadas também oferecem uma visão abrangente da dinâmica da comunidade de aves local e do estado de conservação dos ambientes monitorados.
A Log Nature tem orgulho de apoiar o projeto Observatório do Banhado, contribuindo com equipamentos que auxiliam no monitoramento das aves e fortalecem a produção de conhecimento científico aplicado à conservação da biodiversidade.
Iniciativas como essa demonstram como a combinação entre pesquisa, tecnologia e colaboração institucional pode ampliar nossa compreensão sobre a fauna brasileira e seus desafios frente às transformações ambientais.
Mais informações sobre o projeto e os estudos desenvolvidos podem ser acompanhadas pelo Laboratório de Ornitologia da UFRGS (@ornitoufrgs).

Colaboração especial
Este texto foi elaborado em parceria com o projeto Observatório do Banhado, apoiado pelo programa de incentivo a projetos de conservação da Log Nature em 2025. Agradecemos ao biólogo Ismael Franz, pesquisador do Laboratório de Ornitologia da UFRGS e integrante do projeto, por compartilhar seu conhecimento sobre a fenologia das aves e a importância do monitoramento de longo prazo para a conservação da biodiversidade.