Telemetria na conservação da fauna: quando tecnologia e bem-estar animal caminham juntos
A telemetria se consolidou, nas últimas décadas, como uma das ferramentas mais importantes para o monitoramento e a conservação de animais silvestres. Ao permitir o acompanhamento remoto de indivíduos ao longo do tempo, essa tecnologia fornece informações essenciais sobre áreas de vida, padrões de deslocamento, rotas migratórias, uso do habitat e comportamento. Esses dados são fundamentais para embasar estratégias de conservação, avaliar impactos antrópicos e orientar políticas públicas voltadas à proteção da biodiversidade.
No entanto, tão importante quanto coletar dados é garantir que essa coleta seja feita de forma ética, minimizando qualquer impacto negativo sobre os animais monitorados. A escolha do equipamento, o peso do transmissor e, principalmente, a forma de fixação são pontos essenciais na pesquisa. Métodos inadequados podem causar estresse, alterações comportamentais, lesões físicas e até comprometer a sobrevivência dos indivíduos, além de afetar a qualidade dos dados obtidos.
Entre os diferentes grupos da fauna, as aves, especialmente as de médio e grande porte, estão entre as mais estudadas com o uso da telemetria. Em rapinantes e aves planadoras, como a harpia, o urubu-de-cabeça-preta e o condor-dos-andes, por exemplo, essa tecnologia permite compreender deslocamentos em larga escala, áreas de alimentação, padrões de uso de correntes térmicas, dispersão pós-soltura e conectividade entre habitats.
Apesar dos avanços tecnológicos, que tornaram os transmissores cada vez menores e mais eficientes, o método de fixação ainda representa um grande desafio. O método mais utilizado em aves de rapina envolve a fixação dorsal de transmissores por meio de arneses peitorais, frequentemente descrito na literatura como um sistema do tipo “mochila”. Embora amplamente empregado, esse método apresenta limitações bem documentadas na literatura científica.
É nesse contexto, que se insere o estudo do André Beal “Dorsal anchoring: an alternative to the pectoral harness for the attachment of transmitters to raptors”, publicado em 2025 no Journal of Field Ornithology. O trabalho apresenta e avalia uma nova técnica de fixação de transmissores em aves de rapina, denominada ancoragem dorsal, desenvolvida como uma adaptação do método tipo mochila, mas com impactos potencialmente menores sobre os animais.
A pesquisa foi conduzida no Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) de Aracaju, em Sergipe, durante atividades de reabilitação e soltura de aves. Ao todo, 31 rapinantes foram monitorados, incluindo urubus-de-cabeça-preta (Coragyps atratus), gaviões-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus), gaviões-de-cauda-branca (Geranoaetus albicaudatus) e um gavião-preto (Urubitinga urubitinga). Diferentes modelos de transmissores foram utilizados, incluindo dispositivos IoT, equipamentos GPS/Argos e GSM solares das marcas Lotek e Ecotone, com pesos compatíveis com a massa corporal das espécies monitoradas.
A técnica proposta combina fixação direta às penas dorsais com um sistema de amarração leve, evitando o contato direto do equipamento com a pele do animal. Antes da fixação, uma fita isolante de tecido é aplicada à base do transmissor para melhorar a aderência da cola e impedir que o adesivo alcance a pele.
O transmissor é então colado na região entre as escápulas, alinhado ao eixo do corpo, com a antena voltada para trás. Fios de seda são utilizados para ancorar o equipamento às penas de cobertura escapular e às penas terciárias das asas, que não são consideradas essenciais para o voo. Todo o procedimento é realizado manualmente, sem anestesia, com contenção cuidadosa, e o arranjo final das penas busca manter a plumagem o mais natural possível.
Um ponto importante dessa técnica é que, como o transmissor está preso às penas e não ao corpo do animal, a muda natural da plumagem garante a soltura espontânea do equipamento ao longo do tempo, eliminando a necessidade de recaptura.
Os resultados do estudo foram bastante promissores. O tempo médio de transmissão dos dados foi de 86 dias, com um período médio total de monitoramento de 114 dias, considerando dados obtidos após recapturas. Em alguns casos, os transmissores permaneceram ativos por mais de 300 dias, sendo a duração limitada principalmente pela vida útil da bateria, e não pela perda do equipamento.
As observações pós-soltura não indicaram alterações comportamentais significativas. As aves apresentaram voo natural, deslocamentos expressivos e uso normal do habitat. Em indivíduos recapturados, não foram observadas lesões na pele ou danos às penas, tampouco perda de condição corporal. Pelo contrário, um dos urubus recapturados apresentou aumento de peso ao longo do período monitorado.
Comparada aos arneses tradicionais, a ancoragem dorsal eliminou o risco de abrasões na região das asas e reduziu o tempo de manejo durante a instalação do equipamento. Os autores concluem que a técnica de ancoragem dorsal atende a dois objetivos centrais: reduzir impactos negativos sobre os animais e permitir a soltura natural do equipamento ao longo do tempo, sem a necessidade de recaptura. Embora o método seja mais indicado para estudos de curto e médio prazo (até cerca de um ano), ele representa um grande avanço, especialmente para o monitoramento de aves planadoras e rapinantes.
Mais do que uma inovação técnica, esse trabalho reforça um princípio fundamental da conservação, onde a tecnologia deve estar a serviço da vida. Investir em métodos que respeitem o bem-estar dos animais não apenas é uma exigência ética, mas também uma forma de melhorar a qualidade dos dados e fortalecer a ciência aplicada à conservação da biodiversidade.