Retrospectiva 2025: apoio a projetos de conservação

Retrospectiva 2025: apoio a projetos de conservação

A conservação da biodiversidade é construída no trabalho diário de quem atua em campo, desenvolvendo estudos e ações voltadas à proteção da fauna e da flora. Em 2025, tivemos a oportunidade de colaborar com diversas pesquisas que refletem diferentes abordagens para a conservação.

Atuar em estados distintos é fundamental para compreender a diversidade de ecossistemas e espécies do Brasil. Cada bioma enfrenta ameaças específicas, que vão do desmatamento e da poluição aos conflitos entre as atividades humanas e a fauna local, exigindo soluções adaptadas ao contexto de cada região. Nesse cenário, apoiar iniciativas distribuídas pelo país permite proteger áreas estratégicas, gerar conhecimento científico mais abrangente e fortalecer redes de conservação que consideram tanto a fauna quanto as comunidades que dela dependem.

A seguir, apresentamos alguns exemplos dessas iniciativas, que ilustram diferentes estratégias adotadas para a proteção de espécies e ecossistemas em distintos contextos. A lista não contempla todos os projetos apoiados, mas evidencia a diversidade de ações desenvolvidas.

Impactos antrópicos na saúde dos morcegos na Amazônia (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA)

Na Amazônia, os morcegos desempenham funções ecológicas essenciais, atuando no controle de populações de insetos, na polinização e na dispersão de sementes, o que os torna peças-chave para o funcionamento dos ecossistemas. Desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a pesquisa investiga como a poluição ambiental associada às mudanças no uso da terra, como monoculturas, mineração ilegal e urbanização, influencia a saúde desses animais. O estudo avalia indicadores fisiológicos e citogenéticos e busca compreender os diferentes caminhos pelos quais essas alterações afetam os morcegos, incluindo a contaminação da água, do solo e dos recursos alimentares, especialmente insetos.

Embora muitos estudos na Amazônia se concentrem na descrição da biodiversidade, compreender como as atividades humanas afetam diretamente a saúde dos morcegos traz uma nova perspectiva para a conservação da fauna.

Prevenindo a Extinção do Tatu-canastra (Priodontes maximus) na Mata Atlântica (Lucas Mendes - ICAS)

O Parque Estadual do Rio Doce (PERD), a maior área protegida de Mata Atlântica do Brasil, abriga ecossistemas essenciais para a sobrevivência de diversas espécies ameaçadas, incluindo o tatu-canastra (Priodontes maximus). Essa espécie, que enfrenta riscos elevados de extinção, desempenha papel importante na manutenção do solo e na dinâmica dos ecossistemas florestais. O projeto Prevenindo a Extinção do Tatu-canastra concentra esforços no PERD e em sua zona de amortecimento, avaliando a ecologia, ameaças e viabilidade populacional da espécie. A iniciativa fornece subsídios fundamentais para estratégias de conservação e manejo, incluindo ações de proteção de habitat, monitoramento populacional e engajamento com as comunidades locais, reforçando a preservação de uma das espécies mais icônicas da Mata Atlântica.

Regeneração em agroflorestas de cacau no sul da Bahia (Matheus Torres - Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade UESC)

No sul da Bahia, as agroflorestas de cacau combinam produção agrícola com fragmentos florestais, contribuindo para a conectividade da Mata Atlântica. O projeto investiga como fatores ambientais, como cobertura florestal, presença de dispersores de sementes e características do solo e do dossel, influenciam a regeneração florestal nessas áreas.

O estudo avalia tanto a regeneração natural do banco de sementes quanto o crescimento de mudas experimentais, incluindo espécies como Euterpe edulis (ameaçada) e Inga edulis (indicada para restauração).

Os resultados fornecem informações valiosas para orientar práticas de restauração e manejo sustentável dessas agroflorestas, promovendo conservação e recuperação da Mata Atlântica.

Meliponário do Ecomuseu dos Campos de São José (Maria Siqueira - Centro de Estudos da Cultura Popular)

As abelhas desempenham papel central na polinização, formação de frutos e dispersão de sementes, influenciando tanto a produção agrícola quanto a regeneração ambiental. O estudo Meliponário do Ecomuseu dos Campos de São José tem como objetivo conservar abelhas nativas e promover a conscientização sobre a importância desses polinizadores.

Além da conservação, o meliponário atua como espaço de educação ambiental, envolvendo a comunidade local em ações de monitoramento, resgate de colônias, plantio de espécies nativas e incentivo à convivência harmoniosa entre pessoas e natureza. O projeto fortalece a proteção das abelhas nativas, inclusive em áreas urbanas, e estimula práticas que valorizam esses polinizadores fundamentais para a biodiversidade.

Avaliação da Interação entre Ariranhas (Pteronura brasiliensis) e Onças-pintadas (Panthera onca) na região do Porto Jofre (Caroline Leuchtenberger - Projeto Ariranhas).

No Pantanal, rios, lagoas e várzeas formam um ambiente complexo em que predadores de topo, como onças-pintadas (Panthera onca), e ariranhas (Pteronura brasiliensis) interagem, influenciando toda a rede ecológica. Na região de Porto Jofre, o projeto investiga essas interações, avaliando como fatores ambientais e atividades humanas afetam o comportamento, predação, defesa e densidade populacional de ambas as espécies ao longo dos corpos d’água monitorados.

Ao relacionar essas interações interespecíficas com variáveis como regime hidrológico, incêndios e circulação de embarcações, a pesquisa fornece recomendações para reduzir conflitos, proteger habitats críticos e orientar estratégias de conservação.

Análise comparativa do perfil hematológico, dieta, características morfométricas e ecologia do movimento de Tracajás (podocnemis unifilis) em lagos de meandro, rios e igarapés (Isabelle Caroline - UFAC).

Em rios, lagos e igarapés amazônicos, os tracajás (Podocnemis unifilis) desempenham papel importante na dispersão de sementes e na manutenção da estrutura dos ecossistemas aquáticos. Na comunidade São João, na Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade, o projeto investiga como a ecologia do movimento desses quelônios influencia seu tamanho, dieta e parâmetros hematológicos. A pesquisa avalia diferenças morfométricas e hematológicas entre os ambientes, analisa padrões alimentares e caracteriza os locais de coleta considerando fatores como distância até corpos d’água, temperatura, tipo de substrato e impactos antrópicos. Com isso, busca compreender como o uso do habitat afeta a biologia e a saúde da espécie, fornecendo informações relevantes para sua conservação.

Monitoramento de grandes felinos e suas presas em Reservas Extrativistas do Acre  (Luiz Borges - Associação SOS Amazônia)

Grandes felinos são predadores-chave que regulam populações de presas e mantêm o equilíbrio ecológico. Na Amazônia, o projeto monitora esses animais e outros mamíferos terrestres por meio de armadilhas fotográficas, identificando padrões de movimento e uso do habitat. A iniciativa também envolve a comunidade local, fortalecendo a ciência cidadã e a conscientização ambiental.

Os dados gerados subsidiam estratégias de conservação e manejo, permitem avaliar impactos humanos e orientam ações para mitigar conflitos e proteger áreas prioritárias, contando ainda com o apoio de tecnologias de reconhecimento automático de espécies.

Monitoramento das comunidades recifais das ilhas oceânicas brasileiras (PELD ILOC)

As ilhas oceânicas brasileiras abrigam ecossistemas marinhos únicos, altamente sensíveis a alterações climáticas e antrópicas. O monitoramento de longo prazo permite avaliar como esses impactos afetam a biodiversidade marinha. Nesse contexto, o projeto acompanha diversos componentes da fauna e da flora, incluindo peixes, tubarões, caranguejos, corais, ouriços, polvos, plâncton e algas, além de analisar fatores abióticos e desenvolver iniciativas socioambientais.

Entre os destaques estão os estudos sobre o plâncton, a população do caranguejo-aratu (Grapsus grapsus) e o planejamento para criar o primeiro banco de dados genético da biodiversidade marinha com uso de eDNA, contribuindo de forma significativa para o avanço do conhecimento científico e para a conservação desses ecossistemas únicos.

Análise da efetividade de passagens de fauna como ferramenta para conservação da biodiversidade na Flona restinga de Cabedelo, Paraíba (Nelsinely Ficher - UFPB).

O atropelamento de fauna ao longo de ferrovias é uma das principais ameaças à biodiversidade em áreas protegidas, causando perdas significativas de indivíduos e afetando populações locais. Na Floresta Nacional (FLONA) Restinga de Cabedelo, na Paraíba, pontes de dossel foram instaladas sobre a linha férrea como uma estratégia para reduzir esses impactos. A iniciativa envolve a instalação de estruturas feitas de diferentes materiais, o monitoramento de seu uso e o registro das espécies que as utilizam, com o objetivo de identificar os designs mais eficazes para promover travessias seguras e proteger os animais.

Canastra e Colmeias: Coexistência nos Assentamentos do Cerrado (Projeto Tatu Canastra).

Os conflitos entre tatus e apicultores ocorrem, em geral, quando a atividade de escavação desses animais causa danos às colmeias e às estruturas dos apiários, gerando prejuízos econômicos e tensões entre a conservação da fauna silvestre e os meios de subsistência humanos.

Com o objetivo de mitigar esses conflitos, o projeto monitora o comportamento do tatu-canastra nos apiários dos assentamentos Mutum e Avaré, em Ribas do Rio Pardo, com o apoio da comunidade local, promovendo a coexistência harmoniosa entre apicultores e essa espécie ameaçada. Por meio do uso de câmeras trap e da instalação de barreiras físicas, são registrados os padrões de interação com as colmeias e adotadas estratégias para impedir o acesso dos animais. Além disso, o projeto realiza ações de sensibilização junto aos apicultores, reforçando a importância da conservação e incentivando a valorização de produtos certificados com o selo “Amigo do Tatu-Canastra”.

Programa Carnívoros do Rio

Onças-pardas (Puma concolor) e jaguatiricas (Leopardus pardalis), carnívoros de topo da Mata Atlântica, desempenham um papel crucial na regulação de populações de presas e na manutenção do equilíbrio dos ecossistemas. No Rio de Janeiro, o Programa Carnívoros atua na reabilitação e reintegração desses felídeos, monitorando sua movimentação, dispersão, área de vida, sobreposição espacial e ecologia alimentar. A iniciativa desenvolve estratégias de conservação, incluindo corredores ecológicos e medidas de coexistência, além de protocolos de reabilitação, soltura e análises genéticas, sanguíneas e parasitológicas, fortalecendo a proteção dessas espécies.

Monitoramento da fauna na T.I. Cachoeirinha (Stefania Cristino - Instituto SOS Pantanal)

Na Terra Indígena Cachoeirinha, no Pantanal, nascentes e cursos d’água são vitais para a manutenção da biodiversidade. O projeto, realizado em Miranda (MS), avalia os impactos das ações de restauração ecológica nessas regiões e identifica áreas prioritárias para a conservação da fauna. A iniciativa também analisa a distribuição e ocorrência das espécies, promove oficinas de conscientização com a comunidade local e utiliza tecnologias como câmeras trap e SIG para apoiar o manejo adaptativo. Além disso, os relatórios produzidos subsidiam políticas de conservação e estratégias de restauração.

Primatas PERDidos: Conservação do muriqui-do-norte e do bugio-ruivo (Vanessa de Paula - Muriqui Instituto de Biodiversidade).

O Parque Estadual do Rio Doce abriga espécies emblemáticas da Mata Atlântica, como o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) e o bugio-ruivo (Alouatta guariba), que desempenham papéis essenciais na dispersão de sementes e manutenção da biodiversidade local. O projeto Primatas PERDidos monitora os grupos remanescentes dessas espécies, avaliando sua demografia, status de conservação e principais ameaças. A iniciativa utiliza ciência cidadã e turismo de observação de primatas para envolver a comunidade e fortalecer a proteção dessas espécies a longo prazo, tornando-os símbolos de conservação local. Entre os objetivos estão estimar tamanho populacional e densidade, mapear áreas prioritárias para conservação, fornecer dados para manejo e proteção, desenvolver ações participativas e gerar trabalhos científicos.

Serviço de Atendimento de Animais Silvestres de Blumenau - SAASBlu (FURB)

O atendimento especializado a animais silvestres é fundamental para garantir a saúde e a preservação da fauna, além de fortalecer a conscientização ambiental e a educação da comunidade. O SAASBlu, realizado em Blumenau (SC), oferece atendimento médico-veterinário especializado a animais de vida livre e àqueles apreendidos por órgãos ambientais na região do Médio Vale do Itajaí, promovendo tratamento, recuperação e reintegração ao habitat sempre que possível.

Além do cuidado direto, a iniciativa atua na educação ambiental e na formação acadêmica, integrando professores, alunos e funcionários em atividades práticas de ensino, pesquisa e extensão. Também conscientiza a comunidade sobre a importância da fauna silvestre, fortalecendo a conservação local.

Diploendozoocoria em Ecossistemas Aquáticos: Lontras como Vetores Secundários de Sementes (Pedro Henrique - FURG).

As lontras-neotropicais são predadores de topo essenciais para a manutenção do equilíbrio em ecossistemas aquáticos, regulando populações de peixes e outros vertebrados e influenciando a estrutura das comunidades. Seu papel como dispersoras de sementes, no entanto, ainda é pouco conhecido. Nesse contexto, o projeto investiga como essas lontras podem contribuir para a dispersão de sementes, avaliando se consomem suas presas inteiras e se transportam sementes de forma secundária.

A pesquisa também analisa o uso de latrinas por lontras e outras espécies como pontos de interação ecológica. Os resultados vão fornecer informações valiosas para compreender melhor a contribuição desses predadores para a regeneração de áreas úmidas e a conservação da biodiversidade nesses ecossistemas.

Monitoramento e Conservação de Preguiças na Área de Proteção Ambiental Floresta Manaós (Instituto Igapó).

Na região de Manaus, fragmentos florestais estão inseridos em um mosaico urbano, criando um cenário em que os humanos precisam se adaptar à presença da fauna local. Diferentemente de grandes centros urbanos, esses remanescentes florestais amazônicos ainda mantêm elevada diversidade de espécies e funcionam como corredores ecológicos e refúgios importantes para a fauna. Nesse contexto, o projeto investiga a ecologia das preguiças no fragmento florestal da UFAM e sua resposta à urbanização de Manaus. O monitoramento contínuo permite identificar padrões de uso do habitat e comportamento de Bradypus tridactylus e Choloepus didactylus, além de avaliar fatores de risco, como atropelamentos e ataques de cães. A iniciativa também fornece subsídios para políticas públicas de conservação e apoia a capacitação de estudantes em manejo e pesquisa de fauna silvestre.

Cada um desses projetos evidencia que conservar envolve compreender a fauna, seus habitats e as interações com o ambiente e a sociedade, propor estratégias eficazes de conservação, engajar comunidades e fortalecer políticas públicas. Todos compartilham o compromisso com a preservação da biodiversidade brasileira e com a construção de um futuro mais sustentável para as espécies.